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As “loucas” da Praça de Maio 

Edcarlos Bispo de Santana 7 de novembro de 2017 0
A primeira vez em que li menção sobre as Mães da Praça de Maio foi em livro de Rosiska Darcy de Oliveira.  A partir daí não mais deixei de revisitar suas raízes. Essas mulheres me conquistaram para sempre.

As Mães da Praça de Maio são uma notável organização de mulheres argentinas, ativistas dos direitos humanos há mais de quatro décadas. Seus filhos foram sequestrados e quase todos assassinados pelos militares argentinos durante a “guerra suja” contra os movimentos de esquerda, de 1976 a 1983.  O atual governo da Argentina reconhece que aproximadamente 9 mil esquerdistas e líderes trabalhistas morreram nas mãos dos militares durante a ditadura. Porém, as Mães da Praça de Maio e outros defensores dos direitos humanos acreditam que o número de mortos aproxima-se de 30 mil.  Essas vítimas “desapareceram” sem deixar rastro.

O objetivo da ditadura era esmagar a esquerda argentina e implementar a mesma política neoliberal imposta pelo regime do presidente Pinochet no Chile, pelos sucessivos governos militares do Brasil  a partir de 1964  e por numerosos outros regimes de opressão na América Latina. O governo argentino cortou drasticamente os salários, declarou ilegais contratos sindicais então vigentes, conseguiu a demissão de  milhares de  ativistas sindicais e promoveu a privatização de boa parte da economia.

Conscientes de tudo o que estava acontecendo, as Mães da Praça de Maio deram início a uma corajosa campanha para exigir que o governo argentino desse conta do paradeiro de seus filhos desaparecidos.  À medida que a consciência política crescia, elas tornaram-se inimigas implacáveis dos responsáveis por aquela guerra suja. E no processo de oposição à agenda neoliberal, essas mães começaram a se ver como herdeiras dos ideais de seus filhos, dispostas a levar adiante a luta deles.

As mães da Praça de Maio não têm ilusões.  Sabem que seus filhos, a maioria, foram sequestrados, torturados e assassinados pela ditadura militar na Argentina.  No entanto, elas permanecem firmes, recusando as ofertas do governo de reparação ou indenização pelas mortes de seus filhos.  Elas insistem em  declarar que não aceitarão formalmente a morte de seus filhos enquanto não for apresentada documentação  sobre o que aconteceu com eles. É a única esperança de que a justiça seja feita pelo que aconteceu durante a ditadura.

Elas eram apenas um grupo de mulheres, mães e avós, que, em Buenos Aires, durante os sangrentos anos da ditadura militar, defenderam a causa de seus filhos que haviam “desaparecido” no abismo da tortura e da morte. Brandindo diante da ditadura o direito violado da maternidade, elas criaram uma força política com repercussões.  Foi, talvez, o mais eloquente clamor contra aqueles terríveis  anos na Argentina.  Movidas por razões que eram aparentemente estritamente “privadas”, elas emergiram politicamente com novas metas e desafios, nascidos da dor inconsolável da perda de seus filhos.

As loucas têm sua “razão”.  E esta não é tão fora de propósito, uma vez que o próprio Papa Francisco, argentino, a reconhece. Na data em que se celebra o Dia das Mães na Argentina, um grupo delas foi a Roma.  Seu intento era realizar uma manifestação na Praça de São Pedro em comemoração  à data e aos 40 anos do movimento.  O desejo delas era realizar uma marcha, mas não foi possível porque naquele dia havia uma canonização acontecendo naquele mesmo lugar.

Porém, o papa Francisco não se esqueceu delas.  Mandou um sacerdote buscá-las, colocá-las na primeira fila, e cumprimentou uma por uma.  Assim, mesmo sabendo as posições controvertidas que existem  na Argentina em relação às Mães da Praça de Maio, o Papa reconheceu e apoiou a “razão” dessas mulheres, que sofrem até hoje pela ausência nunca preenchida de seus filhos.

O olhar de pastor do Papa reconheceu que esses corpos femininos, consagrados pelo milagre da vida, tornaram público o vazio e a ausência deixada por seus filhos desaparecidos, e então tornaram-se instrumentos de redenção para todos que sofreram sob aquela cruel opressão.

 

Maria Clara Lucchetti Bingemer, professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio. A teóloga é autora de “Teologia latino-americana – Raízes e ramos” (Editoras Vozes e PUC-Rio), livro que acaba de ser lançado.

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